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A Comunidade LGBTQIA+ nos eSports – e porquê precisamos falar sobre isso

Estamos no mês do Orgulho LGBTQIA+, mas sabemos que a visibilidade à comunidade LGBTQIA+ deve se dar de forma contínua. O cenário dos jogos de FPS ainda se mostra bastante retrógrado em relação à inclusão de grupos considerados minoritários pela sociedade: existe muito a ser feito. Hoje contamos com a colaboração de Sophie, Social Media da Vikings e Botafogo, e Igor ‘Turma’ Nogueira, streamer de Valorant e responsável pelo mapeamento de streamers LGBTQIA+ na Twitch.

 

Por que nos FPSs existem tantos casos de LGBTfobia?

A sociedade ainda engatinha quando se trata de lidar com as diferentes identidades sexuais e gêneros. No microcosmo dos jogos de FPS, parece haver uma maior concentração de ataques contra essa comunidade. Mas por que?  

Os jogos como Valorant e CS:GO exigem uma constante comunicação entre os players. Isso obriga os jogadores a abrirem o microfone, fato que expõe parte da sua individualidade. “Se você é uma mina, ou qualquer pessoa da comunidade LGBTQIA+ e precisa se comunicar, você já está correndo o risco de sofrer uma agressão gratuita. Acontece sempre, as denúncias estão aí, e é muito triste. Isso pra mim é um dos maiores fatores da gente não conseguir ter tantas pessoas com notoriedade dentro do cenário”, comenta Igor.

O streamer, que joga CS desde a infância na LAN, teve de jogar diversas vezes mutado após experiências desagradáveis em ser chamado de “viadinho”. No caso de mulheres, muitas abrem o voIP e acabam sendo assediadas ou taxadas de más jogadoras.

Além do fator da comunicação, o esporte eletrônico favorece o anonimato e consequentemente o sentimento de impunidade. Sophie conclui: “as pessoas acham que na internet você é intocável, porque ninguém sabe quem está por trás da tela do monitor”.

A representatividade importa, sim!

Dizia-se que LOL era joguinho de “fadinha”, e que por isso seria um jogo para gays. Para Sophie, essa fama – “ridícula”, em sua opinião – acabou puxando o público LGBT para conhecer o jogo. Além disso, o LOL possui uma base LGBTQIA+ maior por conta de Minerva e Kami, players assumidamente gays que possuem em seus currículos títulos no CBLoL.

“O Minerva não tinha vergonha da pessoa que era, e logo depois veio o Kami, que também é da comunidade LGBT e conquistou diversos títulos”. A representatividade de ter dois pro players reconhecidos na base da formação do LoL certamente acolheu diversos jogadores LGBTQIA+ que poderiam se sentir excluídos do meio. “É um ambiente que pode ser duro, mas que você sabe que vai ter a sua turma”.

Kami e Minerva, pro players de LoL e assumidamente gays (Reprodução: Riot Games Brasil)

Em relação ao jogo em si, a desenvolvedora Riot não deixa a desejar. Existem skins de personagens esteticamente construídas, com um olhar que foge da sexualização e objetificação das personagens. “As personagens possuem histórias, identidade, e muitas vezes fora do eixo ocidental.” Para Igor, existe uma correlação entre uma comunidade mais receptiva e as personagens pensadas pela desenvolvedora. “No CS, não acontece o mesmo. As skins são estáticas e se resumem a homens CT e TR padrões. Não existe a possibilidade de se utilizar uma skin feminina sem pagar a mais por isso.”

Neeko e Varus são dois personagens construídos pelo LoL, em que a primeira é lésbica e o segundo é gay. (Reprodução: Riot Games)

 

A comunidade faz o jogo, ou o jogo faz a comunidade?

De um lado, as desenvolvedoras influenciam no comportamento da comunidade, no sentido da criação de enredos diversos e personagens com identidade. Além disso, as fiscalizações em relação a comportamentos tóxicos – racistas, machistas e LGBTfóbicos – também interferem nas atitudes dos players. 

Por outro lado, a comunidade também pode fomentar discussões para pressionar as desenvolvedoras a tomarem atitudes. O surgimento de pro players e influenciadores que se posicionem politicamente e possuam discursos contra a LGBTfobia também são horizontes para a comunidade, que se espelham em pessoas-referência.

“Todas as pessoas LGBTQIA+ que jogam competitivamente precisam ser 10x melhores, estão constantemente tendo que se provar. Homem hétero se ajuda em todos os aspectos, desde montar time até bombar a live. As oportunidades tinham que vir também de quem tá no privilégio e os grandes nomes do cenário precisam se posicionar”, diz Igor.

 

Como fomentar o cenário LGBTQIA+?

 

Não são apenas os players os responsáveis pelo fomento à comunidade. Além das figuras públicas que devem servir como exemplos, é fundamental o apoio de organizações e desenvolvedoras para criar times e competições com participação de jogadores LGBTQIA+, mulheres e pessoas negras. “É necessário mostrar que a gente tá aqui, que existimos. A comunidade precisa aceitar que cada dia mais as pessoas são livres para serem o que elas querem ser”, diz Sophie.

Ao mesmo tempo, a visibilidade da comunidade LGBTQIA+ não deve acontecer somente em junho. A Riot organiza competições femininas e campanhas ao público LGBTQIA+ ao longo do ano inteiro, mas ainda falta a fiscalização sobre os constantes ataques preconceituosos vindo de players. Para Igor, a inclusão não é sobre criar espaços de segregação. “Aí chega novembro e vai ter campeonato só para pessoas negras, em fevereiro campeonato só para mulheres… a luta das minas e da galera LGBTQIA+ do cenário competitivo do Valorant é incrível, hoje está acontecendo o Game Changers,  mas o sonho que eu tenho é que todos e todas estejam jogando em times mistos.”

Um exemplo de iniciativa da Riot neste mês do orgulho foi a possibilidade de resgatar bandeiras tanto no Valorant, como no LoL.  A obtenção desses cards não envolve o pagamento dos jogadores. “Para mim, só deles não pedirem dinheiro em troca e quererem lucrar em cima de uma pauta, já é uma diferença. As intenções são outras”, complementa Sophie.

Foram disponibilizados sete cards no Valorant, cada uma representando diferentes identidades sexuais e de gênero. São cards para transgêneros, pansexuais, não binários, bissexuais, assexuais, gays, e um Card LGBTQIA+ arco-íris. (Reprodução: Riot Games)

Um outro exemplo de iniciativa da comunidade é o mapeamento dos streamers e das streamers LGBTQIA+, realizado por Igor ‘turma’ Nogueira, com o auxílio da Andrezza Delgado, ambos da PerifaCon. “Fiquei dias e dias nas plataformas de streaming procurando a galera LGBTQIA+ que fazia live. Muitas ali, com poucos viewers, e fiz esse mapeamento. Tivemos um bom feedback, e decidi manter o site durante o restante do ano. Não tive patrocínio, foi um investimento e uma ação que organizei por conta própria”, explica Igor. 

O site https://www.joguecomorgulho.com.br/ disponibiliza o mapeamento de streamers LGBTQIAP+ de Valorant (Reprodução: Jogue com Orgulho)

Para concluir, Sophie dá a letra: “A gente tem a Paula Nobre, que começou no CS e foi pro LOL. Tem a Thaiga, bissexual que tá na Loud. Tem a Queen B, mina trans do LoL, ativa desde a base junto com a Minerva. Quando os homens héteros vão jogar contra as minas, eles sabem que vão levar bala.”

A  comunidade sabe que vai ter que respeitar. 

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