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O tabu em torno do cheat

Por uma discussão madura na comunidade

Agradecimentos ao grupo Tribo Gaules, onde encontramos membros bastante solícitos em contribuir com uma discussão aprofundada em prol da comunidade do CS. Além dos ex-cheaters entrevistados, também gostaríamos de agradecer aos programadores Matheus Suchy e Pablo Nora. O viés da psicologia comportamental nos foi oferecido pelo psicólogo e programador Fausto Coutinho. Por fim, agradecemos ao MuriloRT, youtuber e especialista em análise de cheats do CS:GO, que nos proporcionou uma entrevista.

“Não jogo mais MM. Só tem cheater.” Essa frase, bastante proferida entre jogadores insatisfeitos com o anti-cheat da Valve, é tão generalizada quanto a existência dos cheaters. Alguns enxergam pelas paredes, outros atiram com uma reação além da capacidade humana, até aqueles que realizam o absurdo de teletransportar pelos mapas. Nesta análise buscaremos entender o que leva os cheaters a cheatar, quais são as noções de programação para entender o funcionamento dos cheats, como diferentes anti-cheats podem funcionar e os perigos para o usuário de cheat. Não temos a intenção de trazer soluções para esse problema, mas sim incentivar a reflexão e a discussão dentro da comunidade do Counter Strike.

Um histórico: cheatando desde os primórdios

O Brasil, desde a época do Super Nintendo, era uma espécie de periferia dos games. Dessa forma, o cheat possuía uma função distinta da de hoje, que era a de fazer com que o jogador brasileiro se sentisse pertencente aos modos de jogo que um americano ou um japonês possuía. Por exemplo, se você quisesse ter um Pokémon X, o jogo exigia que o player estivesse geograficamente localizado no Japão ou nos EUA – e, por esse motivo, muitos brasileiros usavam cheat para emular o evento. O cheater só queria ter o mesmo direito que um japonês ou um americano. 

Da mesma forma, o famoso CD do GameShark para Playstation 1 funcionava como um cheat, ao emular eventos no console. “Você não atrapalhava outros jogadores, era um cheat contra um computador. No comecinho dos jogos online, como Ragnarok e Tibia, era mais difícil enxergar os possíveis usos de hack, portanto era tudo muito mais simples. Os hacks da época eram deixar os bonecos jogando sozinhos, colocando uma fita adesiva no mouse, ou colocar bolas de gude em cima das teclas”, comenta Pablo Nora, que trabalha com software há 8 anos e hoje lida com IA em uma empresa uruguaia.

CD do GameShark, utilizado como “cheat” nos primórdios dos jogos de console

Com o aumento da competitividade dos jogos online e o desenvolvimento da programação, não demoraram a surgir cheats mais sofisticados. Se antes o usuário precisava recorrer a hardwares – como o CD do Game Shark -, hoje é possível tanto realizar downloads de arquivos da internet para cheatar, como aprender o básico de programação Python e criar seus próprios bots e códigos.

Os cheats

Wallhack, triggerbot, spinbot, aimbot: são os hacks mais comuns de serem encontrados nas partidas, seja em sua forma escancarada – nos Matchmaking ou servidores HvH – ou na sua forma discreta e legit – em servidores da GC ou FaceIt. Para entender a dificuldade de atuação dos anti-cheats, é necessário entender antes como funcionam as diversas formas de cheatar.

Captura de tela de um exemplo de cheater que utiliza wallhack, aimbot, spinbot e bunnyhop (Reprodução: Baimless)

Desses hacks, alguns podem ser programados de forma interna, e outros de forma externa. Por exemplo, o aimbot seria um cheat interno: “o que acontece com todo jogo é que as posições dos inimigos estão no seu computador, e o valor da posição fica na memória do cliente. No caso do aimbot, temos que levar em conta que o computador processa as informações em eixo X e Y. Tudo o que o aimbot vai fazer é pegar esse valor na memória e encaixar com uma equação simples”, explica Matheus Suchy, estudante de Ciências da Computação e Jogos Digitais.

Já os cheats externos são mais difíceis de serem detectados pelos anti-cheats, pois geralmente são códigos que estão fora da programação interna do jogo, como é o caso do triggerbot  e wallhack. 

Além de cheats internos e externos, existem também formas de hackear por software ou hardware. Pensando em um jogo de FPS, os três pontos fundamentais são: onde o inimigo está, para onde está mirando e se está atirando. O cheat atua principalmente nos dois últimos, sendo que o hack por software pode, por exemplo, usar a visão computacional – o computador tira fotos da tela e com essas informações, coloca o mouse onde ele tem que estar. Já o hack por hardware é mais sofisticado: “você pode utilizar raspberries que se conectam no mouse e no computador. Essas placas vão processar os comandos para o computador, que não irá saber se é a minha mão atuando sobre o mouse ou se é a placa”, comenta Pablo.

Cheat x Anti-Cheat: briga de cão e gato

Os anti-cheats agem, geralmente, buscando DLLs que estão sendo injetados e nomes estranhos presentes no código. “Por exemplo, quando a gente programa um cheat e escreve “aimbot”, a própria Valve vai banir, porque é o nome do cheat no programa. Por isso muitos cheats escondem isso através de outros nomes”, explica Matheus. Sobre os problemas de baixar hacks gratuitos, continua: “Vamos supor que um jogador foi banido pelo overwatch, e tinha um código injetado no jogo dele. Se esse mesmo código for achado no jogo de outros clientes, todos eles são banidos”.

No caso do anti-cheat da GC, o seu funcionamento acontece por meio de capturas de tela, identificando qualquer alteração visual do jogo. Dessa forma, o wallhack é pouco utilizado na GC, enquanto que triggerbot e aimbot são mais utilizados em competitivos dessa plataforma. 

Já na FaceIt, foi realizado um investimento de cerca de 15 milhões de dólares no sistema anti-cheat. Segundo MuriloRT, mesmo com esse alto investimento é possível encontrar brechas. “Naturalmente, é mais difícil cheatar na FaceIt, mas os programadores conseguem achar um bypass. Essa dificuldade faz com que os cheaters paguem muito caro ao programador, uma vez que se trata de um código exclusivo – e, geralmente, serve para buscar vitórias no cenário competitivo e profissional.”

MuriloRT caracteriza a relação entre programadores de cheat com programadores de anti-cheat como uma briga de “cão e gato”. Mesmo sistemas sofisticados, como os de bancos que movimentam trilhões de reais, precisam sempre de programadores para constantemente proteger o sistema e encontrar possíveis exploits. É por isso que todos os anti-cheats estão constantemente exigindo atualizações por parte do usuário.

Anti-Cheat perfeito x Privacidade

“A Valve não investe em anti-cheat, por isso muitos param de jogar” é o tipo de frase proferida por parcelas da comunidade do CS. A questão é que existe investimento da Valve e outras corporações pelo aprimoramento do anti-cheat, com constantes atualizações à prova de novos códigos injetados, no entanto, existem alguns impeditivos para o funcionamento de um sistema mais efetivo.

Segundo MuriloRT, é muito difícil ter uma boa política anti-cheat e ao mesmo tempo assegurar a privacidade dos usuários. “Um sistema de segurança mais confiável é invasivo ao computador do usuário. Por isso, se a Valve quisesse implantar um AC semelhante ao da FaceIt, eles seriam proibidos de operar em diversos países, justamente por ser um anti-cheat invasivo. Não é bom para o bolso da empresa, e é nesses casos em que a Valve prefere manter o seu sistema do jeito que está”.

O anti-cheat do Valorant foi considerado intrusivo por diversos usuários. O sistema de segurança permanece aberto desde que o PC inicia e filtra tudo o que está acontecendo no computador.

Apesar das dificuldades que os jogos de FPS enfrentam, outros tipos de jogos conseguiram criar uma dinâmica peculiar que desincentiva o uso de cheat. É o caso do Super Smash Bros, que possui modos em que o player pode habilitar e desbloquear itens que se assemelham aos cheats. Com a existência de um modo “for fun” em que o player pode jogar gigante ou invencível, separado de um modo competitivo com regras mais restritas, a quantidade de cheaters diminui significativamente.

Super Smash Bros possui modos de jogo “for fun”, em que “cheats” do próprio jogo podem ser habilitados

Os cheaters sob a perspectiva da psicologia comportamental

Quem são os cheaters, o que fazem e onde vivem? Após entrevistarmos diversos ex-cheaters, chegamos à conclusão de que não existe faixa etária, gênero ou motivação que permita enquadrar os cheaters em uma mesma categoria. 

Para entendermos as motivações por trás de um cheater, entrevistamos o psicólogo e programador, formado na POLI-USP e no Instituto de Psicologia da USP, Fausto Coutinho, que afirma que “por mais que estejamos falando do mesmo comportamento, ela possui funções diferentes”.

No caso de crianças e adolescentes, muitas vezes a motivação é a de se encontrar como indivíduo na sociedade. “É uma competitividade comum nessa fase, como aqueles que querem ser bons em futebol para “humilhar” a galera. Tem muito adolescente que pensa que não tem controle sobre seu ambiente, e assim, para construir sua noção de “eu”, é normal que nessa fase da vida você procure espaços onde possa obter destaque. Para tentar delimitar um contorno do que você é, você evita o lugar de violência e busca o lugar de reconhecimento”.

Já pensando em situações como o HvH, em que cheaters competem contra cheaters, Fausto traz um outro viés: “Se você pensar em competições de programação, tem muita gente que já tem seu emprego garantido mas que gosta de participar de hackathon, porque é onde o cara pode competir. A competição entre cheaters é também sobre afirmação de espaço, mas não com o objetivo de obter vantagem no jogo e sim para se consolidar em um espaço onde já se tem uma imagem formada”. Dessa forma, o objetivo no HvH não é tentar ser legit, mas competir para ver quem programou o melhor cheat. 

A explicação se torna mais complicada quando se trata dos profissionais que usam cheat. Fazendo um paralelo com os atletas de alto rendimento que são pegos com doping, Fausto questiona: “por que um cara vai se dopar se ele já é bom? Por que nunca é um “zé ruela” que é pego no doping? Como explicar isso?”

Para o psicólogo, é difícil estabelecer uma regra geral para estes casos, pois tudo depende do que motiva o atleta a competir. “Se a motivação é ser o melhor e o atleta aprendeu que para isso não importa a circunstância ou os meios, esse cara vai ser mais propenso a explorar os limites entre o que pode e o que não pode. Em jogos cooperativos como CS ou futebol, é difícil detectar o cheater ou o dopado, pois é fácil se camuflar onde existem muitas informações trafegando. A causa raíz estaria associada à busca incondicional por excelência.”

Por fim, se coloca uma questão: não se faz exame toxicológico em gamer, mas o uso de medicamentos como Ritalina ou drogas como a cocaína para aumentar a performance pode ser considerado um cheat? “É um cheat químico mas ninguém fala sobre isso. É quando você tá no seu auge, na sua melhor performance, que supostamente você teria esse “eu” bem delimitado, que também começam a aparecer coisas turvas. Você faz todo um esforço para manter esse ideal que nem sempre é sustentável”.

“Não existe almoço de graça”

É preciso ter muita cautela em acreditar que ao baixar um hack free – cheat gratuito – não haverá maiores consequências. “Quem cria o cheat geralmente coloca uma maldade por trás. Ele pode colocar um software para extrair dados, fazer com que seu computador passe a minerar bitcoins, ou libere o acesso da webcam a terceiros. Sem você saber, sua privacidade pode estar em risco”, alerta Pablo Nora.

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