Review: Stray, o jogo do gatinho

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Review: Stray, o jogo do gatinho

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É um desafio enorme para os desenvolvedores independentes competirem no mercado atual dos games, tendo em vista que empresas AAA detém o monopólio do público, incontáveis desenvolvedores parceiros, além do capital para investir e distribuir o jogo, plataformas de divulgação, e etc. É por essa dificuldade que jogos indie que alcançam as principais prateleiras do mundo dos games são ainda mais reverenciados, demonstrando que até mesmo estúdios menores conseguem produzir verdadeiras obras-primas. Títulos como Hollow Knight, Terraria e Celeste são exemplos de jogos que ocupam essas prateleiras, sendo muitas vezes melhores avaliados que games das principais desenvolvedoras, além de contarem com uma comunidade apaixonada e dedicada.

Stray, jogo desenvolvido pela BlueTwelve Studios, é o mais novo título indie que impactou a indústria e, gradativamente, conquistou seu lugar como um dos principais jogos dos últimos tempos. Ele, inclusive, está especulado para constar na disputa pelo título de Game of the Year (  "jogo do ano") na The Game Awards, ao lado de títulos como Elden Ring e Pokémon Legends: Arceus. Único em sua proposta, o jogo consiste em uma aventura observada na perspectiva de um gato que, de maneira linear e detalhada, explora e desenvolve um mundo distópico, sem presença de humanos (e de luz solar, por grande parte da história), ao mesmo tempo que vivo e exuberante.


O título, lançado para PC, Playstation 4 e Playstation 5, vem ganhando alguma notoriedade desde seu teaser no State of Play de 2020, evento anual da Playstation para anunciar jogos e novidades. O hype e boas críticas no lançamento resultaram em um lançamento de enorme sucesso tanto nos consoles quanto no PC, considerando que a última plataforma citada já conta com 1.5 milhões de downloads, apenas 3 semanas após seu lançamento.


A curiosidade matou o gato, e apresentou a história


Stray se apresenta logo de cara como um jogo acolhedor, com uma história bem desenvolvida e um mundo cuja beleza é de tirar o fôlego. Estamos em um futuro distante, onde os seres humanos foram obrigados a abandonar a superfície do nosso planeta e se instalar em cidades e construções no subsolo, se fechando completamente à luz solar. Não é dito exatamente o por quê desse abandono à superfície, porém, o jogo, através dos diálogos e dos colecionáveis ao seu decorrer, sugere que alguma praga ou guerra tornou inabitável o mundo que hoje conhecemos.


Essa realidade distópica, porém, é escondida inicialmente do jogador que, pelos primeiros 15 minutos, tem como objetivo controlar um dos gatos do bando, apresentado nas primeiras cutscenes. O grupo explora, sem nenhum motivo aparente, uma construção humana abandonada há muito tempo, então tomada pela natureza. Logo de cara, o game apresenta cenários e efeitos sonoros primorosos, com uma música acolhedora no fundo, além de uma certa fluidez nos movimentos dos gatos dificilmente observada em outros títulos, tanto no jogo quanto nas cutscenes. Esse cenário é substituído, enfim,  ao que o gatinho controlado pelo player é separado dos demais: ele escorrega por um cano, caindo em uma área do subsolo que então será o  palco para o desenrolar da trama.

Inicialmente hostil, a área subterrânea apresenta os “inimigos” do jogo:, os Zurks, que também têm sua história explicada ao avançar das fases. Após um curto período de exploração do subsolo, o nosso protagonista felino se vê num contexto de fuga, evitando uma investida dos Zurks até chegar a uma das cidades subterrâneas, também apresentada como um ambiente pouco amigável.

É na cidade que enfim conseguimos entender o universo do jogo, além da ambientação gradativamente recuperar aquele conforto apresentado no início d o jogo, uma vez que a o lugar é lotado de mistérios, exploração e diálogos com os simpáticos robôs que habitam o subterrâneo desde o fim dos humanos. Como não queremos dar spoilers do resto do gameplay, não entraremos mais em detalhes sobre a trama… Porém, é importante salientar que a história é muito bem contada através das mecânicas do jogo, além de apresentar uma densidade de conteúdo, emoção (mesmo que apenas com gatos e robôs) e justificativa para quase tudo na sua tela, tornando Stray um dos destaque dentre os jogos storytellers dos últimos anos.

 

A gameplay 

 

O jogo é, de maneira geral, bastante acessível, e tem como o seu foco a apresentação e desenvolvimento dos cenários. Uma das primeiras coisas que os jogadores de Stray percebem ao iniciar sua aventura é que o jogo praticamente não apresenta desafios, uma vez que as principais mecânicas de movimentação e interação servem como mecanismos de apresentação daquele mundo. Com isso, atividades complexas em outros jogos, como escalar, se esgueirar por frestas, dar saltos, e as eventuais brincadeiras que o gato faz, são todas controladas de maneira simples e intuitiva, muitas vezes com um simples botão. Isso garante coesão ao jogo, uma vez que o player é, afinal, o gato – e nada disso é difícil para um gato!

 

Porém, para que um jogo tenha sucesso com uma proposta dessa, muito polimento nas animações e mecânicas é necessário, e Stray felizmente demonstra isso ao longo de todo o desenvolvimento da obra. Os movimentos do gato são esguios, permitindo que a travessia do jogador pelos cenários seja bastante rápida e elegante, além bastante semelhantes aos dos nossos amigos felinos do mundo real, trazendo uma certa satisfação ao jogador no momento de exploração. É importante salientar que Stray não foi feito para impressionar todos com suas mecânicas aprimoradas e liberdade de movimentação e exploração, e sim para atrair a atenção do jogador ao detalhismo e à vivência do cenário e da qualidade dos efeitos visuais e sonoros.

 

Com a qualidade, vem os incômodos

 

Não podemos negar que Stray já é um sucesso, tornando-se uma nova referência ao design de games e um recado à comunidade de que as desenvolvedoras independentes estão aqui para ficar – tanto pelo estilo de jogo e apresentação, quanto por sua propaganda e divulgação, além do hype construído pela base de fãs desde 2020. É nesse contexto de extrema qualidade, porém, que as falhas do jogo (especialmente de gameplay), tendem a saltar mais aos olhos, não podendo, de forma alguma, ser deixadas de lado por uma review.

 

Muitos jogadores argumentam que a linearidade do jogo limita bastante a exploração e o desenvolver do mundo ao redor. Apesar de ser verdade que essas características tornam o jogo mais acessível ao público e cadenciam o ritmo da gameplay de maneira primorosa, não podemos deixar de imaginar como o jogo seria se o gato tivesse liberdade para pular para onde quisermos, e não apenas para as plataformas telegrafadas pelo botão, por exemplo, aumentando a sensação de liberdade durante a gameplay.

 

Um dos problemas que surgem do padrão elevado do jogo, também é a falta de polimento de certas ações. A maioria dos objetos alcançáveis pelo gato podem ser carregados e reposicionados, porém, alguns desses objetos não aparentam ter gravidade, e muitas vezes se observa ragdolls estranhos durante o jogo. Outra questão similar é a animação do nosso personagem felino que, em maioria dos casos, se apresenta bem feita e factível. No entanto, os erros em movimentos (ou até mesmo a falta de complexidade de alguns deles) são dificilmente ignorados, causando um certo desconforto ao jogador.

Por fim, podemos, também, nos direcionar ao storytelling do jogo que, apesar de ser coeso e apresentar uma trama interessante ao longo da narrativa do jogo, se faz principalmente por caixas de texto em diálogos. Apesar disso não necessariamente ser um problema, diversos outros jogos do mesmo gênero, como Inside, Journey e Absul, possuem a capacidade de contar as suas histórias sem nenhuma apresentação repetitiva ou cansativa, apenas contando com os seus vívidos cenários, para que o jogador se insira no mundo proposto. De certa maneira, o jogo com um gato de protagonista muitas vezes ignora esse simples fato, lotando a tela do jogador de diálogos e adicionando um propósito maior à vontade de um animal. Afinal, fica o questionamento: um gato de rua iria mesmo querer ajudar os robôs e dar continuidade à vida na Terra, ou apenas caçar ratos e buscar por um tão sonhado pires de leite?

Por Megan Kirkby
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