Dependência química: uma questão de saúde pública

Dependência química: uma questão de saúde pública

Por José Henrique Bomfim, Ph.D.*

Você provavelmente já escutou, ou mesmo já disse essa frase:  "nossa, sou viciado nisso". Pois bem, a verdade é que por mais ingênuo que isso possa parecer, o vício ou dependência de alguma substância é um grave problema enfrentado pelos governos de diversos países, com consequências importantes à saúde pública destes.

Mas afinal, o que seriam vícios? Por que nosso cérebro age dessa forma? Quais os compostos que mais causam dependência? Cafeína e açúcar podem viciar? 

Se você quer saber a resposta para essas e outras perguntas fica com a gente porque a Overclock vai te explicar tudo que você precisa saber.

Só para adiantar, vamos passar pelos seguintes tópicos:

    • De onde surgem os "vícios"?
    • Compostos que podem causar dependência química e/ou psíquica
    • Açúcar causa dependência?
    • A cafeína pode viciar?
    • Conclusão

De onde surgem os "vícios"?

Ser "viciado" em algo, como costumamos dizer quando gostamos muito de alguma coisa (como filmes, músicas, comidas...), não reflete o real significado da palavra, quando é usada de maneira informal para descrever a dependência química, ou "adicção" (termo adaptado do inglês "addiction"), em alguma substância.

O poder ou potencial de dependência de uma substância, está diretamente ligado a um sistema de nosso corpo, chamado de "sistema de recompensa cerebral". Mas porque chamamos este sistema de "recompensa"?

A primeira vez que a ciência teve uma pista para a presença de um sistema de recompensa no cérebro veio com uma descoberta acidental de James Olds e Peter Milner em 1954. Eles descobriram que os ratos realizavam comportamentos como pressionar uma barra, para administrar uma breve explosão de estimulação elétrica a determinados locais em seus cérebros.

Esse fenômeno é chamado de autoestimulação intracraniana ou recompensa por estimulação cerebral. Normalmente, os ratos pressionam uma alavanca centenas ou milhares de vezes por hora para obter esse estímulo cerebral, parando apenas quando estão exaustos. Ao tentar ensinar ratos a resolver problemas e correr labirintos, a estimulação de certas regiões do cérebro onde a estimulação foi encontrada parecia dar prazer aos animais.

 As pesquisas sobre o tema, realizadas nas duas décadas seguintes, puderam determinar que a dopamina é uma das principais substâncias químicas que auxiliam a sinalização nessas regiões, e a ela foi sugerida como sendo a "química do prazer" do cérebro.

Este tipo de experimento era realizado também para administrar substâncias aos animais. Quando pressionada a barra, o animal recebia uma dose de alguma substância. Após isso, a barra era energizada para inibir este comportamento. 

Se o animal continuasse a pressionar a barra para receber doses da substância, mesmo com a descarga elétrica, isso demonstraria o poder daquela substância em causar "vício", pois mesmo com eletrochoque o animal continuava a pressionar apenas para recebê-la, e isto caracteriza o potencial de dependência de uma substância.

Além deste potencial de dependência, as substâncias que são mais viciantes costumam a desenvolver a síndrome de abstinência, a partir de sua retirada e também o que conhecemos como "fissura" (craving), que é o desejo incontrolado de mais uma dose.

Mas afinal, quais substâncias são reconhecidamente viciantes e qual o potencial risco de seu consumo?

Compostos que podem causar dependência química e/ou psíquica

Além das drogas de abuso, como cocaína e heroína, que possuem extremo potencial viciante por ativação dos centros dopaminérgicos e de recompensa no cérebro, outras substâncias exibem este perfil.

Os compostos químicos que ativam o sistema de recompensa de maneira mais severa já são bem conhecidos pela medicina, pois é necessário ter em mente a forma de tratamento dos usuários destes compostos, tanto para o chamado "desmame" (retirada gradual), como para a overdose. Há protocolos médicos para cada substância e seu desmame, bem como diretrizes de tratamento da abstinência destes.

A lista de compostos pode ser encabeçada pelos opióides, que são substâncias com vasto uso na medicina pelo seu poder analgésico. Estas drogas são também chamadas de narcóticos e fazem parte deste grupo a morfina, oxicodona, fentanila, tramadol, codeína e dolantina (petidina).

Estas substâncias são essenciais no tratamento das dores em pacientes com câncer ou em traumas como acidentes veiculares. Seu uso é fundamental na medicina e é por isso que os protocolos para evitar a dependência são tão rigorosos. A partir da primeira dose já são observados efeitos da dependência e o controle deve ser iniciado de imediato.

Nos EUA há uma grande preocupação com o abuso destas substâncias e o mercado underground de venda delas. O consumo por jovens é elevado pois é comum a prescrição para atletas que sofrem lesões mais graves e o meio escolar e universitário norte americano é baseado fortemente na prática esportiva.

Outro grupo de substâncias de extrema importância são os medicamentos para ansiedade, chamados de ansiolíticos. Fazem parte deste grupo drogas como diazepam, clonazepam e midazolam. Estas pertencem a uma família de drogas chamada benzodiazepínicos e todas elas podem causar dependência.

Além destes dois grupos, temos ainda as anfetaminas, usadas no tratamento do TDAH e também para obesidade. Metilfenidato, lisdexanfetamina, anfepramona e femproporex são drogas desta classe.

Em menor grau, algumas substâncias podem induzir a sintomas de dependência, mas sem os efeitos da abstinência na retirada, como é o caso de drogas chamadas adrenérgicas, muito comuns em medicamentos para tratamento de gripes e resfriados. 

Há até uma cultura de humor relacionada a um medicamento bem conhecido e que causaria dependência, o Neosoro (existem memes sobre a dependência de Neosoro e sua venda como se fosse uma droga ilícita), usado para congestão nasal e que tem em sua composição a nafazolina, um agente adrenérgico que pode aumentar a produção de dopamina (relacionada à dependência).

Mas, as perguntas que não querem calar são:  e o açúcar? E  a cafeína?

Açúcar causa dependência?

A questão do açúcar pode ou não ser uma substância de abuso e levar a uma forma natural de dependência é vastamente explorada na ciência. O “vício em comida” parece plausível porque as vias cerebrais que evoluíram para responder a recompensas naturais também são ativadas por drogas viciantes. 

Os açúcares (sacarose, glicose e frutose) são substâncias que podem liberar opióides e dopamina e, portanto, pode-se esperar que tenham potencial viciante. Conforme mencionamos anteriormente, os componentes do vício são o potencial de abstinência e o desejo ou fissura e estes são demonstrados comportamentalmente com a ingestão excessiva de açúcar como reforçador. 

Esses comportamentos são então relacionados a alterações neuroquímicas no cérebro que também ocorrem com drogas viciantes. As adaptações neurais incluem alterações na ligação de dopamina e receptor opióide e liberação de dopamina e acetilcolina no núcleo cerebral. A evidência então apoia a hipótese de que, sob certas circunstâncias, as pessoas podem se tornar dependentes do açúcar.

A cafeína pode viciar?

E o café, mais precisamente, a cafeína? Ela também pode viciar?

O uso de senso comum do termo vício é que o consumo regular é irresistível e cria problemas. O uso de cafeína não se encaixa nesse perfil. Sua ingestão não causa danos ao indivíduo ou à sociedade e seus usuários não são obrigados a consumi-lo. 

Embora a interrupção do uso regular possa resultar em sintomas como dor de cabeça e letargia, estes são facilmente revertidos pela ingestão de cafeína. 

Apesar da cafeína afetar as mesmas partes do cérebro que a cocaína, isso ocorre de maneira completamente diferente. Há evidências de sintomas de abstinência de cafeína, e a cafeína atua como um reforçador fraco, mas nenhum dos efeitos é tão pronunciado quanto os associados à cocaína por exemplo. 

Conclusão

Portanto, o uso de cafeína parece não representar qualquer ameaça para o indivíduo ou para a sociedade. De acordo com a ciência, não há necessidade de acrescentar o diagnóstico "dependência de cafeína"  e está foge então do conhecemos por dependência.

Em dosagens de até 800 mg por dia, a cafeína é uma substância estimulante com boa margem de segurança e os efeitos colaterais de seu uso são observados de forma individual, dependendo da resposta de cada um à cafeína. As dosagens de até 400mg dia conferem segurança na utilização da cafeína, seja como neuroestimulante ou mesmo para o desempenho esportivo.


Na formulação de Overclock 2.0, temos 99 mg de cafeína, assim como na nossa primeira versão. Esta dosagem é considerada ideal para os efeitos que as pessoas que consomem Overclock 2.0 buscam, sem os danos causados por doses excessivas.  

Overclock 2.0, portanto, pode viciar pelo sabor e pelos resultados positivos de seu uso, mas sem risco nenhum a você.


Referências Bibliográficas:


AVENA N et al.  Evidence for sugar addiction: Behavioral and neurochemical effects of intermittent, excessive sugar intake. Neurosci Biobehav Rev. 2008; 32(1): 20–39.

DALY J et al. Is caffeine addictive? The most widely used psychoactive substance in the world affects same parts of the brain as cocaine. Lakartidningen. 1998 Dec 16;95(51-52):5878-83.

SATEL S. Is caffeine addictive? a review of the literature. Am J Drug Alcohol Abuse. 2006;32(4):493-502

*José Henrique Bomfim é Farmacêutico Bioquímico, mestre em toxicologia, doutor em farmacologia clínica e consultor científico da Overclock

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